Rebeca nasceu primeiro. era uma menininha de cabelo cacheado, magrela e de pouca fala. Flora, ao contrário, nasceu três anos depois, cabelo escorrido e muito louro, gasguita de tão falante que era. Elas são filhas do mesmo pai, mas de mães diferentes: cada uma tem a sua.
Duas mães bem diferentes! A de Rebeca, mais jovem, é casada com outra pessoa, cuida da casa e nunca viveu com seu pai, apenas namorou algum tempo e então Rebeca nasceu. Já a mãe de flora, tinha trinta e nove anos quando ela nasceu, é professora, muito ativa e já teve outro casamento. Seu relacionamento com o pai de Flora e Rebeca já dura há alguns anos.
No meio disso tudo, o pai das meninas, um senhor de certa idade, professor, baixinho, e quase calmo quando se trata de questões mais delicadas. Um tipo de pai que é mãe!
As meninas sabem que suas mães não desenvolveram amizade. O que o importa mesmo é que Flora e Rebeca se gostam muito, embora vivendo em casa diferentes e tendo mães diferentes. Quando elas se encontram nos finais de semana encontram tempo para conviver, brincar e aprender a se relacionar.
Flora tem cinco irmãos: Cristina e Vany são mais velhas, parecem mães dela. São filhas de outro casamento. Roberto e Catarina são filhos do pai com outra mulher. E tem Rebeca, nascida entre um casamento e outro do pai.
Cada filho mais diferente que o outro! E quando junta todo mundo, aí é que dá para notar!
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Um dia desses, em que o céu estava azul e a água do riacho morninha, as duas meninas estavam brincando, quando ouviram um barulho no mato:
- Nossa Flora, tem bicho aí!
- Que nada, Re. Isso é bichinho pequeno. Não inventa monstro,tá?
- Ui! Um homem, olha lá! Vamos correr!
- Não precisa correr, estamos no quintal de nossa casa. Vamos perguntar o que ele quer. Vai ver que quer falar com nosso pai.
O homem se aproxima. É baixinho, tem ar sereno, porém muito magro e totalmente sem cabelos.
- O senhor deseja falar com alguém? - perguntou Flora.
- Quem é o senhor? Vai chegando assim... nao bate palma. - falou Rebeca desconfiada.
- Não se assustem, sou de outro planeta e não vou demorar. Nosso planeta tem procurado contato com seres diferentes de nós no jeito de ser. Por gostar do planeta Terra estamos sempre por aqui. Cheguei hoje e percebi que vocês tem um modo diferente de conviver.
- Como? - falou Flora toda curiosa.
- Pela conversa que ouvi ali atrás da árvore, vocês não tem a mesma mãe, mas tem o mesmo pai, tem irmãos por parte de pai, mas não de mãe e tem irmãos por parte de mãe, mas não de pai. Como é isso? Fiquei muito curioso, e então resolvi me apresentar mesmo correndo o risco de vocês se assustarem - disse o homem.
- É, mas você é bem parecido com a gente, só tem umas coisinhas estranhas, mas tudo bem. Você já está aí e nós já vimos que você é mesmo muito curioso! Senta aqui que nós vamos te contar tudinho! - falou flora.
- No meu planeta não sentamos; ficamos em pé ou deitamos.
- Credo, que canseira! - murmurou Flora.
As meninas ficaram um tempão explicando como era a família delas. Pergunta pra lá, pergunta pra cá, no final do papo as meninas viram o homem silencioso e pensativo.
- Você entendeu como as coisas acontecem aqui na Terra? perguntou Rebeca.
- Na Terra há modos diferentes de viver e de formar uma família.
Explicam... Explicam...
- Estou confuso! No meu planeta esse tipo de situação não acontece. Quando vivemos com alguém é para o milênio e, além disso não temos tantos filhos. Tudo é controlado.
- Milênio? - pergunta Flora.
- É, vivemos mil anos e depois voltamos a ser partículas do universo. Por vivermos muito, não é possível ter tanta gente nascendo. O ciclo de vida é mais longo para nós.
- Tá vendo, vocês são diferentes de nós. Não vivemos tanto tempo assim - observa Flora.
Rebeca fala com conhecimento das coisas:
- Se você andar mais um pouco pela Terra, vai conhecer modos diferentes de viver em família, coisa que nem a gente que vive aqui conhece muito bem. Ouvimos falar...
- Faz o seguinte, você anda por aí mais um pouco e sempre que você conhecer uma família que vive de um jeito diferente, vem contar pra gente - foi logo dizendo Flora.
- Prometo! - garantiu ele.
Com o irmão Roberto se aproximando, o homem sumiu como por encanto.
- Que animação é essa? Do que estavam falando?
- Nóóós...? - exclamaram em coro.
- Sempre falamos de coisas muito sérias! Coisas que os adultos custam a entender, né Flora?
- É...
As duas meninas caíram na risada.
Em julho de 1988 escrevi este conto infantil, motivada pela filharada que se reunia em nossa casa.